Atrofia cerebral associada a permanecer sentado por períodos prolongados.

por Damian McNamara

Permanecer sentado por longos períodos na meia-idade está associado a atrofia cerebral, mostra nova pesquisa.

Utilizando ressonância nuclear magnética (RNM), pesquisadores observaram que o comportamento sedentário é um preditor significativo de diminuição do lobo temporal medial (LTM) e das subestruturas dele, e que atividade física, mesmo em alto nível, não contrabalança os efeitos prejudiciais de sentar por períodos prolongados.

“Acredita-se que a atrofia e os processos antineuroplásticos associados ao declínio cognitivo se iniciam no lobo temporal medial. A formação hipocampal e suas estruturas adjacentes, especificamente, são essenciais para a função da memória”, disse ao Medscape a autora principal Prabha Siddarth, bioestatística do Semel Institute for Neuroscience and Human Behavior naUniversity of California Los Angeles (UCLA).

“Acredita-se que a informação é incialmente coletada por meio dos córtices perirrinal e para-hipocampal, passando então para o córtex entorrinal, e finalmente chegando à formação hipocampal. Além de canalizar a informação para o hipocampo, as sub-regiões do parahipocampo estão também envolvidas, por si só, no processamento da informação”, acrescentou ela.

“Assim, a descoberta de que sentar por longos períodos diminui o volume destas importantes estruturas é relevante, já que sugere que a diminuição do comportamento sedentário pode ser um futuro alvo para intervenções designadas para melhorar a saúde cerebral na meia-idade e em adultos mais idosos.”

“Já foi dito que ‘sentar é o novo cigarro’ em relação à saúde em geral,” disse o autor sênior do estudo, Dr. David Merrill, professor-adjunto de psiquiatria e ciências do comportamento da Division of Geriatric Psychiatry da UCLA.

“Estes achados mostram um ‘efeito cerebral’ de sentar em um centro crítico da memória no cérebro. Nossa esperança é que os achados inspirem hábitos saudáveis, em casa e no trabalho, tais como levantar e andar por cinco minutos a cada 30 ou 60 minutos”, disse ele.

O estudo foi publicado on-line em 12 de abril no PLOS ONE.

Sem atenuação pela atividade física

Uma grande quantidade de evidências sugere que a atividade física tem potencial de protelar o início da demência e da doença de Alzheimer (BMC Geriatr2015;15:1-7).

Além disso, outro estudo mostra que a atividade física é benéfica tanto para as macro quanto para as microestruturas cerebrais (J Gerontol A Biol Sci Med Sci2014;69:1284-1290Proc Natl Acad Sci U S A2011;108:3017-3022).

Entretanto, não está claro se existe alguma relação entre comportamento sedentário e risco de demência.

“Isto é preocupante, já que comportamento sedentário pode ser independente de exercício e outras atividades físicas e, assim, exige uma pesquisa independente”, escrevem os pesquisadores.

“De fato, uma pessoa pode ser muito ativa e ainda ser sedentária na maior parte do dia.”

Os pesquisadores observam que existem poucos estudos analisando o impacto do comportamento sedentário no volume cerebral.

Para saber mais, eles convocaram adultos de meia-idade e participantes mais velhos e sem demência. Os candidatos ao estudo foram submetidos a triagem que incluiu história médica, exame físico e avaliação da cognição normal global por meio da Mini-Mental State Examination. Após excluir aqueles com transtornos depressivos ou de ansiedade, e idade menor que 45 anos, 35 indivíduos foram incluídos no estudo.

Os pesquisadores genotiparam para APOE4, um fator de risco genético para doença de Alzheimer; 15 dos participantes eram portadores.

As 25 mulheres e 10 homens do estudo foram submetidos a RNM de alta resolução para medir a espessura geral e de subestruturas do lobo temporal medial (LTM). Os pacientes também completaram um International Physical Activity Questionnaire modificado para adultos mais idosos, para quantificar a atividade física e o número médio de horas por dia que eles permaneciam sentados.

Após ajustes para os efeitos da idade, a espessura total do LTM foi inversamente correlacionada com o número de horas sentado por dia (r = –0,37; P = 0,03).

Ainda que o estudo tenha revelado uma associação significativa entre horas na posição sentada por dia e a espessura total do LTM (P = 0,03), não houve associação significativa entre atividade física como medida contínua (P = 0,8) ou medida categórica (P = 0,7) e espessura do LTM à RNM.

Os pesquisadores também analisaram várias sub-regiões do LTM. A espessura foi também significativamente associada ao tempo na posição sentada para o córtex entorrinal (P = 0,05), o córtex parahipocampal (P = 0,007) e o subículo (P= 0,04). De novo, atividade física não foi significativamente associada a modificações em nenhuma destas regiões.

Recomendação clínica

Ainda que os achados sejam preliminares, Prabha disse que seria válido perguntar aos pacientes quanto tempo por dia eles passam sentados, e encorajá-los a fazer alguns intervalos de atividade.

“Se eles têm uma profissão que exige que permaneçam sentados em frente a um computador por períodos longos, sugira que programem um timer para cada hora para que levantem e façam um intervalo”, disse ela.

“Nós havíamos suposto que tanto níveis de atividade física quanto tempo sentado seriam associados com menor espessura do LTM e das sub-regiões dele. Então ficamos um pouco surpresos quando não encontramos uma associação significativa de atividade física e espessura de LTM nesta amostra. Claro que este é um estudo preliminar, com um número pequeno de sujeitos, e é possível que não tenhamos tido força suficiente para detectar a associação com atividade física”, acrescente Prabha.

Ela salienta também que os achados não provam que sentar por períodos prolongados prejudica a saúde cerebral, apenas que mais horas nesta posição está associado ao afinamento de estruturas cerebrais. Um estudo longitudinal ajudaria a determinar um efeito causal entre sentar por longos períodos e estruturas do LTM mais finas, disse ela.

Estudos futuros podem também ajudar a compreender os mecanismos precisos por trás destes achados, e se modificações, tais como fazer intervalos entre períodos longos sentados, ou estar sentado enquanto realizando atividades mentalmente estimulantes (por exemplo, quebra-cabeças) vs.assistindo televisão, faz diferença.

“Em estudos futuros, esperamos analisar e ver se tais comportamentos podem fazer uma diferença significativa para a preservação da cognição com a idade”, disse o Dr. Merrill.

Comentando os achados para o Medscape, Rong Zhang, professor de medicina interna e neurologia e neuroterapêutica da University of Texas Southwestern Medical Center em Dallas (EUA), disse que, ainda que interessante, os achados são preliminares e precisam ser confirmados em estudos maiores.

Vários fatores genéticos e ambientais podem afetar a espessura cortical cerebral, tal como a do LTM observada neste estudo, disse Zhang.

“Sendo assim, seria interessante saber se existe de fato uma relação causal entre horas permanecendo sentado por dia e afinamento das estruturas cerebrais em adultos de meia-idade ou mais idosos em estudos futuros.”

Este estudo foi patrocinado por verbas de National Institutes of Health, Department of Energy, McLoughlin Gift Fund for Cognitive Health, Larry L. Hillblom Foundation, Fran and Ray Stark Foundation Fund for Alzheimer’s Disease Research, Ahmanson Foundation, Lovelace Foundation, Sence Foundation, UCLA Claude Pepper Older Americans Independence Center fundado pelo National Institute on Aging, AFAR, John A. Hartford Foundation and the Centers of Excellence National Program, National Institutes of Health/National Center for Advancing Translational Science, University of California Los Angeles Center for Translational Science Investigation Grant. Prabha e Zhang não relatam conflitos de interesses relevantes. O Dr. Merrill relata receber honorários como palestrante porAssurex Health.

PLOS ONE. Publicado on-line em 12 de abril de 2018.

Artigo original:

https://portugues.medscape.com/verartigo/6502276?faf=1&src=soc_fb_260418_mscpmrk_ptpost_sentarcerebro#vp_1

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